Delìrium Còrdia, 15 anos: sobre narrativas musicais, sonoridades, silêncios e a sedução da vertigem

Delìrivm Còrdia (Ipecac Records, 2004), do quarteto norte-americano formado por Mike Patton, Trevor Dunn (Mr. Bungle, Tomahawk), Buzz Osbourne (Melvins) e Mike Lombardo (Slayer), é um disco temático-conceitual composto de uma única e longa faixa, de 1h14m17s de duração. É como um filme de curta-metragem sem imagens, unicamente para ser imaginado através da música e do recurso a uma diversidade de sonoridades, ritmos, ruídos, texturas, atmosferas e silêncios.

O seu idealizador, Mike Patton, discorda que seja um “filme” de horror musical: “Para mim, é um disco de easy-listening. Não é aterrorizante; é lindo. É assim que eu o escuto. Mas obviamente eu sou a minoria. Que diabos eu sei?”, ironizou o cantor numa entrevista em 2004.

Seja como for, se a expressão “experiência musical” possui algum sentido, é com maior razão aplicada à fruição de Delìrivm Còrdia (e isso inclusive nos momentos em que não há música, como os longos minutos finais). É possível depreender aí uma espécie de “fio condutor”, a sugestão auditiva de uma historieta, de um drama musical que se divide em diferentes seções, momentos ou fragmentos; pode-se discernir, ao longo desta vertiginosa e deliciosa narrativa musical, uma continuidade cuja razão se delineia a partir de cortes e recortes, uma unidade temática e toda uma (minuciosa) dissecação, decomposição ou fragmentação a partir dessa unidade.

Foi concebido para ser escutado e apreciado do início ao fim, como uma totalidade e uma unidade artísticas, sem seleção ou exclusão de determinadas partes. Cabe ao criador, ao maestro, exclusivamente, numa combinação de cirurgião e de açougueiro, conduzir a narrativa, decidir o que é cortado e o que é mantido intacto, o que é preservado e o que é descartado, o que é musicalizado e o que é silenciado.

Literalmente “delírio do coração”, a expressão latina designa o batimento cardíaco irregular. Uma metáfora médica para a experiência musical, criativa e fruitiva. Delìrivm Còrdia é capaz de provocar essas “síncopes” da alma de que fala o filósofo existencialista dinamarquês Soren Kierkegaard. O álbum é inspirado no livro do fotógrafo Max Aguilera-Hellweg, The Sacred Heart: An Atlas of the Body Seen Through Invasive Surgery [O Coração Sagrado: um Atlas do Corpo visto através da Cirurgia Invasiva]. Até a arte visual (a tipografia usada, o fundo preto) lembra aquela do livro. No encarte, a seguinte inscrição (de onde o subtítulo deste blog):

“Like the surgeon, the composer slashes open the body of his fellow man, removes his eyes, empties his abdomen of organs, hangs him up on a hook holding up to the light all of the body’s palpitating treasures sending a burst of light into its innermost depths.” [Como o cirurgião, o compositor abre o corpo do seu semelhante, remove seus olhos, esvazia o seu abdômen de órgaos e pendura-o num gancho, de frente para a luz, conforme esta ilumina as profundezas dos tesouros palpitantes do seu corpo]

Trata-se da paráfrase de um trecho da introdução de Richard Selzer ao livro de Aguilera-Hellweg, onde lê-se, no original, “fotógrafo” (no caso, Aguilera-Hellweg) no lugar de “compositor” (uma analogia entre o cirurgião e o fotógrafo do corpo humano submetido a cirurgias invasivas, analogia que Mike Patton transporta para o campo da música, tomando-a para si). Também no encarte encontramos esta frase, que poderia servir de título alternativo ao disco: Surgical Sound Specimens from the Museum of Skin [Espécimens de Sons Cirúrgicos do Museu da Pele].

Enfim, faz quinze anos, em 2019, que foi lançada essa pérola da música experimental, uma verdadeira obra “sonomatográfica” e sinestética que ultrapassa todas as fronteiras, desafiando definições e convenções estéticas, indo na contramão da mediocridade reinante na indústria cultural. Aquele que tiver ouvidos para ouvir, que ouça! Amém!

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